Qual é a diferença entre Confraria e Clube de Vinho?, por Mariana Vieira

Publicado em 24/08/2017

Quando começamos a desbravar o mundo do vinho, em algum momento ouvimos de conhecidos que eles se encontram em uma confraria para degustar rótulos, ou mesmo que fazem parte de um clube do vinho. Mas o que esses dois termos significam?

Por Mariana Vieira

Uma confraria, de acordo com o Dicionário Aurélio, tem os possíveis significados:

  1. Irmandade.
  2. Associação para fins religiosos.
  3. Sociedade.
  4. Conjunto de pessoas que exercem a mesma profissão ou têm o mesmo modo de vida.

Ainda que o vinho seja para muitos uma religião, pode-se desconsiderar o segundo significado. Os outros três dão bastante a ideia do que é uma confraria: amigos, confrades, quase irmãos, reunidos num estilo de vida que enaltece cada rolha sacada, cada gole degustado. Para se ter uma ideia do peso desses encontros, na França, grande país produtor, esses grupos são chamados de confréries bachiques (de Baco), em alusão ao deus grego.

Foi inclusive na região francesa de Borgonha que se originou um dos mais antigos grupos ainda em atividade: La Confrérie des Chevaliers du Tastevin. Acontece que, antes das famosas safras que tornaram este terroir tão aclamado, em 1933, a região estava desprestigiada e os produtores com dificuldades financeiras.

Dentre eles, dois amigos de Nuits-Saint-Georges, Camille Rodier e Georges Faiveley, formaram uma espécie de secretaria local de turismo. “Como ninguém quer nossos vinhos”, eles argumentaram junto com outros viticultores, “vamos convidar nossos amigos para vir e experimentá-los conosco!”. Ao invés de levar sua produção para tentar vendê-la em Paris, eles preferiam ficar em Nuits-Saint-Georges, com a certeza  de que “as pessoas virão até nós se sabemos como despertar-lhes o interesse”.

Com muita imaginação e poucos recursos, eles tiveram que dar aos seus futuros convidados uma excelente acolhida. Eles encontraram uma bela adega, Le Caveau Nuiton, para dar um banquete, mas o importante era torná-lo único, inesquecível. Estava posta a Confrérie des Chevaliers du Tastevin.

A ideia ainda era nova. No encontro de abertura, em 16 de novembro de 1934, e pela primeira vez, uma confraria de vinho deu as boas vindas a seus amigos com um ritual e uma atmosfera únicos, um banquete elegante e coeso, em um gesto que foi desde então repetido muitas vezes ao redor do mundo.

Existem confrarias de renomados conhecedores de vinhos, de celebridades que esbanjam dinheiro em caras bodegas, assim como grupos de apreciadores. Essas reuniões podem ocorrer em escolas especializadas, em adegas e em importadoras com a presença de um sommelier que conduz a degustação. Pode-se inclusive montar um grupo mais descontraído na casa dos frequentadores ou optar por um restaurante e degustações às cegas – aquele tipo de prova em que as garrafas são embaladas e os rótulos só revelados no final.

Algumas confrarias são ainda focadas em um estilo específico de vinho, como um vinho do Porto ou um espumante, ou em um país ou região produtora. Em comum, a vontade de se reunir para brindar, dar risadas e compartilhar impressões sobre os diferentes vinhos.

As confrarias também são uma ótima oportunidade de experimentar e economizar ao mesmo tempo, veja você. Quem bebe no sistema de confrarias aumenta as possibilidades de descobrir perfis novos gastando menos, uma vez que é comum que cada participante leve uma garrafa ou que todos dividam os custos de garrafas mais onerosas.

Clube de vinho

Como em tantos setores da sociedade, o advento da internet mudou radicalmente o jogo para o mundo dos vinhos. Hoje, com apenas alguns cliques, é possível adquirir grandes safras de praticamente todas as regiões viticultoras. O e-commerce alavancou os negócios de muitas importadoras e permitiu um alcance ainda maior de público, levando a cultura do vinho a um novo tipo de consumidor. Mas com grandes possibilidades, chegam grandes dúvidas: e agora, o que escolher?

Os modernos clubes de vinho chegam para aliar as boas experiências das confrarias em um formato extremamente cômodo. Para oferecer a experiência de curadoria, aliada a possibilidade de pagar menos por determinadas garrafas e ainda descobrir vinhos que do  contrário não conheceria é que surgiram as assinaturas e clubes de vinhos que entregam na casa de seus assinantes rótulos, material explicativo, brindes e toda variedade de acessórios que podem enriquecer a degustação.

Os formatos variam; pode-se pagar um preço fixo mensal por um número determinado de garrafas às cegas; escolher rótulos e fazer uma compra coletiva para diminuir o valor também é uma possibilidade. Assim como as confrarias, alguns clubes de vinho são focados em oferecer um perfil de bebida, como biodinâmicos, artesanais ou orgânicos, ou de uma região específica.

Na Grand Cru, esse serviço leva mesmo o nome de Confraria como uma lembrança das celebrações entre amigos que originaram os clubes virtuais. A ideia é oferecer uma seleção escolhida por uma  equipe de Sommeliers em planos mensais que chegam em casa. Vou conferir a partir da próxima remessa e conto mais em breve.

Santé!

Mariana Vieira é uma jornalista brasiliense que mora em São Paulo. É apaixonada por Gastronomia em todas as suas frentes e decidiu empreender uma jornada de aprendizado no maravilhoso mundo do vinho. Acompanhe as descobertas na coluna Diário da taça no blog da Grand Cru.

Esta matéria fala sobre: Diário de Taça

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