Diário de bordo da taça - aventuras de uma novata no mundo dos vinhos, por Mariana Vieira

Publicado em 17/08/2017

Depois de dois anos trabalhando com café e gastronomia, Mariana Vieira começa a dar os seus primeiros passos no mundo do vinho. Hoje, lança sua coluna Diário de bordo da taça, onde vai compartilhar suas experiências fascinantes de aprendizado com a bebida, passo por passo.

por Mariana Vieira

Pegue o saca rolhas e escolha a taça para o seu tipo de vinho que lá vem história. Quando paro para pensar há quantos anos bebo vinho, posso arredondar para uma década de taças viradas ao léu. Inclusive, taças de vinho branco e de espumante. Agora, quando eu falo de degustar vinhos, minha história é inegavelmente recente.

Como jornalista de gastronomia, tive algumas oportunidades de falar com enólogos, provar diferentes rótulos e visitar algumas vinícolas. Entretanto, mesmo nestas vivências, que eram tanto pessoais quanto profissionais, não me sentia muito segura para opinar ou debater com clareza sobre vinho com os apaixonados que conheci. Mas chegou o momento de aprofundar meus conhecimentos nesse delicioso mundo dos vinhos e desejo dividir minhas descobertas neste espaço. Vem comigo?

A evolução de um paladar

Estive debruçada no mundo do café nos últimos dois anos graças ao trabalho. Percebi neste período uma evolução e uma sensibilidade crescentes na minha percepção dos sabores. “O paladar não retrocede” é um mantra que escutei muito de sommeliers de café, baristas e técnicos em degustações harmonizadas, cuppings e até nas fazendas durante a colheita dessa fruta que, me atrevo a dizer, mudou a história da humanidade. Assim como a uva. Talvez por isso (além de outros tantos motivos) senti recentemente a necessidade de buscar uma educação mais expressiva sobre o mundo dos vinhos. Mas por onde começar?

Um olho no livro e outro na taça: estudar e degustar

A enorme variedade de tipos de uva, regiões produtoras, estilos, cortes, tipos de taça, tudo pode assustar. Então resolvi começar educando os sentidos. Em um curso de 2h30 conduzido pela elegante Amandine Castillon, me sentei com outros espíritos curiosos que estavam conhecendo pela primeira vez a proposta da Grand École.

No curso, nosso primeiro passo para degustar não passou pela boca, mas pelos olhos: é preciso olhar para o vinho. Muitas informações passam despercebidas quando bebemos distraidamente. Cada vinho expressa uma coloração específica que nos conta muito sobre sua biografia. Sim, pois o vinho é um ser vivo que se expressa e aprender a degustar é buscar um entendimento desta expressão.

Ao se examinar uma taça, busca-se limpidez, cor, reflexo. Se estamos falando dos espumantes, a efervescência é mais um fator. Tudo pode ser apreendido com o olhar atento.

Curiosidade: de todos, o vinho rosé tem maior amplitude de cores, pois depende da maceração das cascas, podendo variar entre tons de rosa chá, salmão, cereja e tantos outros.

O segundo passo é um exercício para o olfato: buscar dentro do bojo quais as referências pessoais saltam à memória. Pessoais porque cada pessoa viveu uma experiência diferente na criação de repertório olfativo.

Cresci em Goiás, onde o cheiro de jambo rosa, mangas maduras e jamelão adstringente pairavam no ar seco, abundantes. Uma pessoa crescida na Bahia, por exemplo, onde os temperos pungentes do coentro e do cominho são onipresentes, certamente criou uma biblioteca diferente de aromas.

Para explorar essas diferenças e atiçar nosso olfato, Amandine apresentou um desafio: decifrar o aroma de 25 itens em recipientes cobertos e listá-los. Que dinâmica divertida e enriquecedora! Quando todos terminaram de sentir aromas e anotar as apostas, as comparações provaram que não existe unanimidade quando falamos de aromas e da memória. Pode ser sorte de principiante mas peço licença para me gabar: eu acertei 20 deles!

Com essa estimulante introdução, seguimos para a degustação às cegas de dois rótulos brancos e dois tintos. Neste momento, foi a hora de aplicar os conhecimentos: a qualidade de um vinho pode ser medida pela complexidade de aromas – quanto mais conseguimos distinguir em um rótulo –  e a intensidade, a força com que os mesmos se apresentam.

Pimentão verde foi a nota que se destacou por exemplo no Matetic EQ Sauvignon Blanc do Chile, enquanto pêssego e floral sutil foi o aroma que se destacou no Bouchard Mâcon-Villages da França.

Curiosidade: para fins de comparação, o ideal é degustar vinhos na mesma temperatura.

Para fechar com maestria este encontro, tivemos a degustação comparativa de dois tintos  de origens distintas e aromas complexos. Posso afirmar que, daqui para frente, não deixarei de beber, mas com certeza passarei a degustar primeiro os vinhos que aparecerem pelo caminho.

Santé e até o próximo gole!

Mariana Vieira é uma jornalista brasiliense que mora em São Paulo. É apaixonada por Gastronomia em todas as suas frentes e decidiu empreender uma jornada de aprendizado no maravilhoso mundo do vinho. Acompanhe as descobertas na coluna Diário da taça no blog da Grand Cru.

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