Como degustar um vinho – parte I, por Daniella Romano

Publicado em 21/06/2017

Sabe quando faltam palavras para descrever o que sentimos no vinho? A Sommelière Daniella Romano, em sua coluna Primeiras Taças, ensina o primeiro passo para avaliar o seu fermentado de uva: a análise dos aspectos visuais. Aprenda!

Por Daniella Romano

Perdi a conta das vezes em que tudo que eu conseguia dizer sobre um vinho era “hummm… que delícia!”. Sinceramente, eu sentia tantas coisas, mas nenhuma delas vinha em forma de palavras. Eram apenas sensações que me levavam à essa frase – a mais expressiva que eu conseguia pronunciar quando provava um vinho do qual eu gostava. Ah, como fiquei feliz quando finalmente consegui descrever o que estava percebendo em minha taça. Foi mesmo um momento especial!

Uma das bebidas mais complexas que conheço, o vinho é vivo, evolui com o passar dos anos, muda, melhora, se desenvolve e, muitas vezes, se não for bebido a tempo, oxida e fica velho. Talvez, essa seja a grande magia da bebida e o motivo pelo qual nos apaixonamos perdidamente por ele. Estamos sempre tentando decifrá-lo.

E você, gostaria de tentar descrever o vinho além de “hummm… que delícia!”?

Parece muito difícil, mas é um exercício que passa pelas nossas sensações, nossa memória olfativa e requer introspeção e autoconhecimento. Para descrever um vinho e suas características, utilizará todos os recursos adquiridos ao longo da vida.

A degustação profissional é sistemática e inclui três etapas: a análise visual, a análise olfativa e a análise gustativa. O sommelier prova e pontua o vinho em cada uma dessas etapas. Nós vamos seguir por um caminho parecido. O nosso objetivo será a busca do prazer de um bom copo de vinho, não pontuar.

A primeira dica é servir 1/3 de vinho em uma taça transparente e com haste longa (segure-a pela haste). Aprecie a cor: branco, rosé, laranja ou tinto – cada cor tem seu encanto. E todas nos revelam alguns “segredos”. Por exemplo, você sabia que podemos saber a idade dele pela evolução da cor? E você deve estar se perguntando: por que eu quero saber a idade do vinho, como isso interfere ou não na minha taça?

Saber a idade nos ajuda a confirmar se ele está bom para o consumo, conseguir captá-la pela observação de sua taça e transmitir isso em forma de palavras pode ser muito útil.

Evolução

Como regra geral, os vinhos brancos evoluem ganhando cor, enquanto os vinhos tintos perdem cor ao longo da vida.
Com o passar do tempo e a mudança de cor, o vinho também muda suas características. Alguns irão se beneficiar muito com os anos. São os chamados vinhos de guarda.

Já outros não tem a mesma vocação e perderão muita qualidade se não forem consumidos jovens, por exemplo um Sauvignon Blanc chileno ou de algum outro país do Novo Mundo.

Sem passagem por barrica, o vinho geralmente é amarelo palha com reflexos esverdeados. Essa informação é importante para indicar que a acidez estará boa, as notas florais e herbáceas preservadas e ele será agradavelmente fresco, conforme nossas expectativas. Caso a cor esteja muito evoluída (âmbar), irá nos indicar que ele sofreu alterações em suas características, tais como ausência de acidez e apresentará notas de oxidação.

Vale lembrar que existem muitos vinhos brancos e tintos que ao contrário destes, precisam vários anos em garrafa para evoluírem e mostrarem seu potencial.

Essas são algumas das informações que você perceberá observando sua taça. Eu preparei uma tabela para você acompanhar a evolução das cores. Se tiver oportunidade, abra garrafas do mesmo estilo e de diferentes idades e procure fazer a comparação visual, descobrindo o nome das cores do vinho em sua taça. Não se preocupe em decorá-los, mas guarde as impressões para comenta-las sempre que quiser recordar-se ou mesmo compartilhar com os amigos esse momento.

A próxima etapa é sentir os aromas do vinho e depois prová-lo para saber as sensações (táteis) na boca. E acredite, com um pouco de concentração conseguirá perceber muitas coisas, o que significa que terá muito mais comentários do que “hummm…que delícia!”. Que tal “um vinho jovem, com notas de frutas cítricas, excelente acidez, muito frescor, ficará delicioso com ostras frescas”…? Essa foi apenas uma simulação, mas tenho certeza que você descobrirá que, ao prestar mais atenção, as palavras virão naturalmente.

Cheers!

Daniella Romano percebeu que tinha olfato aguçado depois de se formar Sommelière pela Federação Italiana de Sommeliers, Hoteleiros e Restauradores no Piemonte. Decidiu seguir estudando os aromas do vinho e passou por instituições como Universidade de Davis e Université du Vin de Suze-la-Rousse. Pioneira no estudo e desenvolvimento das caixas de aromas do vinho no Brasil, é hoje referência no assunto e compartilha o seu conhecimento no The Wine Institute, entre as principais escolas de educação de vinho no mundo.

Esta matéria fala sobre: Primeiras taças!

Matérias relacionadas:

“First things first”, por Daniella Romano

Continue lendo

"We need glasses, baby", por Daniella Romano

Continue lendo

"Cooling things" (ou a temperatura de serviço ideal), por Daniella Romano

Continue lendo