Os principais países produtores de vinho do Novo Mundo: Argentina, Chile e Uruguai

Publicado em 14/10/2016

O Novo Mundo engloba os países mais novos a desenvolverem a cultura do vinho no mundo e é dividido em dois grupos distintos: o Novo Mundo Tradicional, que é composto por Argentina, Chile e Uruguai, e o Novo Mundo Moderno, do qual fazem parte EUA, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

O continente sul-americano é o mais importante para a produção vinícola depois da Europa. A influência dos colonizadores espanhóis foi responsável pelo início da cultura do vinho no continente por volta de 1.531, no Peru. No entanto, foi a chegada  dos imigrantes italianos, franceses e alemães, durante as modernas ondas de imigração do século XX, que acabou por consolidar a Argentina, o Chile e o Uruguai como grandes centros de produção de vinho mundial.

Conheça o Uruguai, um dos países mais importantes do Novo Mundo

Uruguai, um país de vinícolas familiares

O país que produz aproximadamente 3,2 milhões de litros de vinho por ano é o quarto maior produtor de vinho da América do Sul e, surpreendentemente, o maior consumidor per capita do continente, com uma média anual de aproximadamente 25 litros por habitante. Já em termos de produção, as vinícolas uruguaias são, em geral, empresas familiares, das quais apenas 30 (aproximadamente 10% de todas as bodegas do país) conseguem produzir quantidade e qualidade suficiente que justifique exportação.

O Uruguai começou a produzir vinhos no começo do século XVIII, devido à influência espanhola no país. Foi com a chegada da uva Tannat em 1.870, no entanto que a produção vitivinícola deslanchou em termos de qualidade, tendo em vista a excelente adaptação da casta ao clima do país.

Conheça o clima uruguaio

O clima local é mais ensolarado e mais úmido do que o da Argentina. Também, o Uruguai é muito frio, não pela altitude dos vinhedos e regiões vinícolas, mas pela influência de correntes frias que vem do sul. Com as baixas temperaturas, a maturação das uvas é influenciada, mostrando-se mais lenta do que o normal e impactando em vinhos ácidos e refrescantes.

Já em relação aos solos uruguaios, o tipo predominante no país é de calcário e argiloso. A principal característica do calcário é que este solo proporciona uma excelente drenagem de água da chuva, o que é ideal para um clima úmido como do Uruguai. Já o caráter argiloso provoca a conservação da umidade nas profundezas do solo, o que torna o cultivo orgânico de uvas viníferas quase impossível.

Com tanta umidade no ar, é um enorme desafio para os produtores manter a podridão longe das uvas. Nas últimas décadas, o método de treliças tipo lira (conhecido como enlatada) foi adotado por muitas vinícolas para tentar manter as uvas ao sol e longe da proximidade dos solos demasiadamente encharcados.

Vinícola uruguaia Pizzorno.

Vinícola uruguaia Pizzorno.

Principais regiões e variedades das uvas vitíferas do Uruguai

A Tannat é, de longe, a casta mais importante para a viticultura uruguaia, um ícone como a Carménère no Chile e a Malbec na Argentina. A uva tinta e muito tânica chegou ao país em meados do século XIX, trazida pelo basco Don Pascual Herriague – o que explica porque o nome Herriague é muitas vezes utilizado como sinônimo da Tannat. Apesar disso, foi só 200 anos mais tarde que a produção comercial ganhou força, quando os imigrantes franceses e espanhóis começaram a cultivar a uva. O início do cultivo da Tannat nas décadas de 1980 e 1990 modificou muito a forma de produzir vinho no país, tanto é que hoje a casta é um símbolo tão forte do Uruguai que é plantada em aproximadamente um terço de toda área vitícola do país. A expressão da casta no país do Novo mundo é completamente oposta à do Velho Mundo: no Uruguai ela se mostra com alta acidez e percentual alcoólico.

Além da Tannat, é possível encontrar castas consideradas internacionais, como a Pinot Noir, a Cabernet Sauvignon, a Sauvignon Blanc, a Torrontés, a Syrah, a Merlot e a Viognier.

Cultivo da uva Tannat.

Cultivo da uva Tannat.

Canelones é a principal região vitivinícola do Uruguai, responsável por aproximadamente 60% de todo vinho feito no país. A umidade local é bem aceita pela uva emblemática do país e a localização próxima a Montevidéu é ideal, já que esse é o seu maior mercado consumidor. Já a região de Montevidéu foi quase completamente tomada pela urbanização. A maioria das vinícolas da região se mudaram para Canelones, cujo clima é praticamente o mesmo. San José, por sua vez, possui o terroir muito parecido com as outras duas regiões. É muito conhecida pelos vinhos feitos com a Tannat e a Sauvignon Blanc.

Por mais que Canelones seja a região com maior produção vitivinícola do país, a área conhecida como Maldonado é a que recebeu maiores investimentos do governo nos últimos anos. O terroir local apresenta uma excelente drenagem de água, que é resultado do solo rochoso com um pouco de areia. Além disso, a proximidade da região com a costa permite que os vinhos produzidos por lá recebam influência marítima, tornando-os mais aromáticos e frescos. Aqui são cultivadas Pinot Noir, Cabernet Franc, Vognier e Tannat, é claro.

Quer experimentar um típico Tannat uruguaio? Conheça o Pizzorno Don Próspero Tannat Malbec, produção da região vinícola de Canelones.

Vinho Tinto Pizzorno Don Próspero Tannat Malbec 2013 750 mL

Vinho Tinto Pizzorno Don Próspero Tannat Malbec 2013 750 mL

Conheça a Argentina, o maior produtor de vinhos da América Latina

Argentina, o país que se tornou referência em vinhos do Novo Mundo

Além de ser o maior produtor de vinhos da América Latina, a Argentina também está em 5º lugar no ranking da produção mundial da bebida, de acordo com os dados da Organização Mundial do Vinho (OIV – International Organisation of Vine and Wine), de 2015. No entanto, não é apenas um país que produz grandes quantidades! Nas últimas décadas a Argentina tem sido cada vez mais reconhecida pela qualidade e excelência dos seus vinhos.

Situada no sul do Novo Mundo, o território é quatro vezes maior do que o da França e, de norte a sul, estendem-se mais de 217.750 hectares de vinhedos, localizados entre 700 e 3.000 metros de altitude.

O vinho chegou ao país mais ou menos na mesma época em que chegou ao Brasil, no início do século XVI, mas foi apenas muitos anos depois que o cultivo das videiras começou a se espalhar. Até pouquíssimo tempo atrás, a Argentina era conhecida por produzir enormes quantidades de vinho, mas de baixa qualidade. Tudo mudou após o início do cultivo da uva Malbec no país, que se tornou a casta emblemática do vinho argentino, trazida por Paul Hobbs e transformada em um dos mais finos e elegantes vinhos pela Viña Cobos.

Você pode conferir a a história dos vinhos na Argentina em detalhes aqui.

A Malbec na Viña Cobos

A Malbec na Viña Cobos

As principais características dos terroirs da Argentina

Um dos aspectos que mais chamam a atenção na viticultura da Argentina é a altitude dos vinhedos, responsável pela criação de inúmeros microclimas. O clima continental também é um fator importante, levando em consideração que os vinhedos não sofrem influência marítima. Muito pelo contrário: são oásis verdes no meio dos desertos andinos.

A pluviosidade oscila entre 150 e 400 mm anuais, o que significa que o clima é realmente desértico. Uma das soluções para melhorar o crescimento das uvas foi instalar um sistema de irrigação por alagamento nos vinhedos com água de degelo dos Andes. Apesar disso, este método está cada vez menos viável, pois não há mais neve em abundância nas Cordilheiras. Isso obrigou os produtores a implementar outras formas de irrigação, como o sistema de gotejamento, por exemplo, que consiste em dosar quantas gotas cada cacho de uva receberá.

O oeste do país, onde estão localizadas as principais regiões vinícolas argentinas, possui solo com formação geológica recente em decorrência da movimentação tectônica no local, a Cordilheira dos Andes. Além disso, o solo dessa região desértica é bastante pobre em nutrientes, o que favorece a boa qualidade das frutas das videiras plantadas ali.

Os maiores desafios encontrados pelos produtores são a amplitude térmica entre a noite e o dia, que pode variar mais de 20°C, as geadas de verão, que têm a capacidade de destruir safras inteiras, e o Zonda, um terrível vento seco do nordeste que atinge as grandes altitudes e é bastante prejudicial às parreiras.

Vista dos Andes da vinícola Zorzal

Vista dos Andes da vinícola Zorzal

As principais uvas e regiões vinícolas da Argentina

As uvas mais cultivadas na Argentina são as castas internacionais, como a Cabernet Sauvignon, a Syrah, a Pinot Noir e a Tempranillo. Também existem algumas variedades regionais, como a Torrontés e a Bonarda, além, é claro, dá clássica Malbec.

A Malbec é a uva ícone em vinhos da Argentina há anos, mas, na verdade, ela é originária da França e só começou a fazer sucesso no continente americano na década de 1980. Responsável por vinhos estruturados, vivos e com muita fruta, o cultivo da uva cresceu milhares de hectares (mais especificamente, 26) pela região de Mendoza nas últimas décadas.

Depois da Malbec, a Bonarda é a segunda casta mais cultivada. Muito utilizada para cortes tintos, com a finalidade de adicionar mais cor ao vinho. Além disso, é uma uva que rende durante a vinificação. A terceira uva da lista das mais famosas da Argentina é Torrontés, uma casta branca muito aromática que lembra a Moscado, de origem em Rioja.

Entre as regiões mais importantes para vitivinicultura argentina está Mendoza, responsável por aproximadamente 70% de todo o vinho argentino. Uma enorme região que engloba inúmeras microrregiões. Lujan de Cuyo é uma sub-região conhecida pelos Malbecs e destaca-se pela idade média das vinhas, que sobreviveram a programas de arranque no século XX. Medoza Central, por sua vez, possui um clima temperado, muito frio em alguns lugares e traz a surpresa do solo pedregoso, o que é incomum no país. Já o Leste de Mendoza é caracterizado pelos vinhedos de menor altitude com pouca influência da Cordilheira dos Andes. Vale do Uco é a sub-região mais interessante de Mendoza. Uco foi um chefe indígena que iniciou o irrigamento no local. As videiras do local, que foram plantadas na década de 1980, estão localizados entre 1.000 e 1.700 metros de altitude.

As regiões de Salta e Cafayete, localizadas no norte do país, possuem os vinhedos mais altos do mundo – alguns estão a mais de 3.000 metros de altitude! O segredo da excelência dos vinhos da região está na baixa produtividade das videiras, já que casa uma das poucas uvas que nascem são de altíssima qualidade. Lá, as castas mais cultivadas são a Cabernet Sauvignon, a Malbec, a Torrontés e a Syrah.

La Rioja é outra região vinícola do país, localizada entre 800 e 1.000 metros de altitude. Lá a região se dedica à produção de vinhos econômicos, enquanto San Juan está mais focada no cultivo exclusivo da casta Syrah.

Por fim, há a Patagônia, que é caracterizada pelo clima muito frio, devido à forte influência da Antártica, mas com baixas altitude. Lá são produzidos vinhos carnudos, muitas vezes inspirados em Bordeaux.

Um típico Malbec de Mendoza e de uma qualidade excepcional para a sua faixa de preço é o Vinho Tinto La Flor de Pulenta Malbec 2014!

Vinho Tinto La Flor de Pulenta Malbec 2014 750 mL

Vinho Tinto La Flor de Pulenta Malbec 2014 750 mL

Os vinhos e os terroirs do Chile

Chile, um país que produz vinhos de qualidade a baixo custo

As primeiras parreiras trazidas às Américas chegaram ao continente no início do século XVI, e foram levadas primeiro ao Peru, depois ao Chile, e só então chegaram à Argentina. As primeiras safras chilenas foram produzidas em Santiago, com o objetivo de serem consumidos como vinho santo nas missas católicas.

Mas só apenas três séculos depois da introdução das uvas viníferas no Chile é que foi descoberto o verdadeiro potencial do terroir chileno. Um fator que impulsionou o vinho chileno no mercado mundial foi a independência do país, que permitiu que os produtores tivessem mais liberdade para criar vinhos diferentes e abrir suas próprias vinícolas.

Uma característica interessante dos vinhos chilenos é o baixo custo da bebida de alta qualidade, principalmente no Brasil. Isso acontece porque o Chile promove políticas de poucos impostos quando o assunto é vinho. Em comparação com o Brasil, o país andino paga cerca de 10% menos impostos na produção e comercialização da bebida.

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As principais uvas e regiões vinícolas do Chile

O país é fortemente conhecido pela Carménère, mas também cultiva inúmeras castas internacionais como Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling e Gewürztraminier.

A primeira região a ser abordada é o Vale Central, que se divide nas sub-regiões Vale do Maipo, Vale do Rapel, Vale do Curicó e Vale do Mapel. Cada uma dessas sub-regiões possui características variadas, com diferenças de temperatura e altitude. Por isso, aqui são cultivadas inúmeras castas diferentes, cada uma no terroir em que se adaptou melhor.

Casablanca, uma região descoberta nos anos 1980 pelo prestigiado enólogo Pablo Morandé, é hoje uma das mais novas regiões vinícolas do Chile. A apenas 70 km de Santiago e a 20 km do mar, ela conta hoje com mais de quatro mil hectares de vinhedos. O clima frio, parecido com o da costa da Califórnia, sofre influência da corrente fria de Humbolt e tem os seus vinhedos cobertos por neblina na parte da manhã. Lá, 75% das uvas cultivadas são brancas, e a Chardonnay e Sauvignon Blanc se destacam, além das tintas Merlot e  Pinot Noir.

Uvas Merlot em Casablanca, o Chile

Uvas Merlot em Casablanca, o Chile

Já o Aconcágua está localizado ao redor do rio de mesmo nome, possui temperaturas mais elevadas e é mais seco do que o Vale Central. A boa ventilação da região é responsável por produzir tintos com características mais frutadas. Isso acontece devido ao amadurecimento das uvas, que é mais lento do que em outras regiões, consequência tanto do tempo, quanto da temperatura.

Por fim, a Região Sul se divide em três sub-regiões. Itata, é conhecida pelos verões quentes e muito secos, com imensa amplitude térmica, o que ajuda no cultivo de castas como Cabernet Sauvignon e Chardonnay. Já o Vale do Bío-Bío possui as temperaturas mais amenas, ideal para a produção de vinhos brancos aromáticos. As castas mais cultivadas são Gewürztraminier e Riesling, além da tinta Pinot Noir. Malleco, a sub-região mais ao sul, é conhecida pelos vinhos de sabor vivo e muito aromáticos.

O Vinho Tinto Koyle Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 é fruto do Vale do Colchágua e produzido pela vinícola orgânica e biodinâmica Koyle.

Vinho Tinto Koyle Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 750 mL

Vinho Tinto Koyle Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 750 mL

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