A história do vinho na Argentina

Publicado em 06/09/2016

Assim como no Brasil, os primeiros exemplares de vitis vinifera, a uva própria para produção de vinho, chegaram na Argentina no início do século XVI junto com os seus colonizadores.

No entanto, foi só em 1551 que o cultivo da uva se espalhou por todo a região. As condições climáticas e o solo dos arredores dos Andes favoreceram muito a agricultura dos vinhedos e, impulsionada pelos monastérios que precisam produzir vinho para a celebração das missas. Junto com a cultura espanhola desembarcou na Argentina uma forte tradição católica, e a vitivinicultura se beneficiou enormemente de ambas.

A chegada de novos imigrantes europeus na Argentina

No século XIX chegou à região uma nova onda de imigrantes europeus que trouxeram em suas bagagens novas cepas estrangeiras e muita tradição na produção de vinhos, como os italianos. Os europeus recém-chegados encontraram em Los Andes e no Vale de Rio Colorado os locais ideais para começar o seu próspero cultivo, e ali se estabeleceram.

Entre 1850 e 1880 a produção de vinhos argentinos começou a mudar de forma. Com a integração do país à economia mundial, a chegada da industrialização e a abertura de múltiplas ferrovias cortando a região, o que antes era uma agricultura voltada para a produção de vinhos tomou forma de uma indústria do vinho.

A consolidação da indústria do vinho argentina

Em 1853 foi criada a Quinta Normal de Agricultura de Mendoza, a primeira escola de agricultura do país, por meio da qual novas técnicas de cultivo de vinhedos foram implementados na região, como o uso de máquinas e modernas metodologias científicas.

Para se ter uma ideia do crescimento da produção de vinho argentino nessa época, em 1873 o país contava com apenas 2.000 hectares de vinhedos, enquanto em 1990 a área cultivada chegou a 210.371 hectares.

É importante frisar que, diferentemente do Brasil, a Argentina sempre manteve uma forte identidade europeia e, com ela, o consumo de vinho pela sua população era de grandes proporções. Nos anos 60 a produção de vinho para o mercado interno era bem estruturada, com amplas redes de distribuição e comercialização. O consumo per capita na época chegada a impressionantes 90 litros por habitante.

A queda do consumo interno e o início da fase moderna da produção de vinhos na Argentina

No entanto, grandes quantidades nem sempre indicam boa qualidade, e o vinho produzido até então podia ser considerado bastante rústico, de baixa qualidade. E esse foi um dos motivos pelos quais o vinho argentino não foi capaz de fazer frente à chegada dos refrigerantes e das cervejas, que inundaram o mercado latino americano a partir dos anos 1970.

Como consequência, o consumo de vinho pelos argentinos caiu drasticamente nos anos 80, de 90 para 55 litros per capita. E como resultado dessa desaceleração do mercado interno de consumo de vinho, cerca de 36% dos vinhedos foram erradicados.

O que parecia ser uma crise duradoura no setor de vinho do país, no entanto, deu origem à uma a fase completamente nova da vitivinicultura argentina. Junto com os anos 90 chegou o neoliberalismo e, com ele, um novo modelo de economia, que integrou a Argentina ao mercado capitalista global. A tecnologia de ponta chegou aos vinhedos argentinos, transformando as vinícolas em moderníssimas unidades de produção de vinhos, em menor quantidade, mas com muita qualidade.

Conheça as principais variedades de castas da Argentina

Malbec, Bonarda e Torrontés são as primeiras variedades de uvas que pensamos quando o assunto é vinho argentino. Curiosamente, nenhuma dessas castas é nativa da América do Sul, mas habituaram-se tão bem ao terroir que passaram a ser vistas como o símbolo da vitivinicultura argentina.

Conheça a clássica Malbec argentina

Foi em 1853 que o engenheiro agrônomo Michel Pouget chegou à Argentina a pedido do presidente Domingo Sarmiento e trouxe consigo não apenas a uva Malbec, mas outras castas, como Cabernet Sauvignon e Pinot Noir.

Originalmente, esta casta é nativa do sudoeste da França, lugar onde ela nunca foi muito cultivada, principalmente depois do ataque da filoxera na Europa. A adaptação da Malbec na Argentina, no entanto, foi excepcionalmente boa, de forma que em pouco tempo a casta já produzia vinhos melhores do que em seu país de origem.

Com aromas de frutas muito maduras, violetas, bastante corpo e acidez moderada, a Malbec se tornou o maior ícone do vinho argentino.

Bonarda, uma casta que você ainda vai ouvir falar

A segunda casta mais cultivada na Argentina foi trazida por imigrantes italianos no fim do século XIX e praticamente dominou os terroirs do país até 1990, quando foi ultrapassada pela Malbec. Ainda sem reconhecimento mundial, a Bonarda está ganhando fortes investimentos em sua produção, principalmente na região de Mendoza.

Torrontés, a uva branca mais famosa da Argentina

Ainda sem origem conhecida, acredita-se que esta casta é resultado do cruzamento entre a Moscatel de Alexandria e a Criolla Chica. O local onde a cepa é mais cultivada é nas regiões de La Rioja e Salta, onde está se transformando no tipo dominante de uva. Até pouco tempo, Torrontés era caracterizada pela acidez baixa, pela amargura e sua textura grossa. No entanto, essas características mudaram bastante com o decorrer dos anos, e hoje a casta branca é marcada por seus aromas florais e frutados, corpo médio e acidez moderada.

Conheça o clima e os terroirs da Argentina

As variadas altitudes presentes no território argentino são responsáveis pela criação de microclimas, impactando diretamente nos diferentes terroirs. Para se ter uma ideia, o cultivo das vinhas se estende por mil e quinhentos quilômetros, desde Salta, no norte do país, até o Rio Negro, na Patagônia.

Embora o clima argentino seja, em geral, árido, a presença das vinhas e a irrigação artificial torna o a região dos vinhedos apenas árida. A influência marítima é quase nula e a água utilizada no local é muito pura, uma vez que é fruto do degelo da Cordilheira dos Andes.

Os solos são predominantemente arenosos e o sistema de irrigação é feito muitas vezes por alagamentos, o que facilita a absorção de água pelas raízes das vinhas.

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Vinhedos da vinícola Yacochuya

Um dos desafios do país é enfrentar o granizo de verão que podem chegar a destruir cerca de 10% da safra do ano e, para evitar que isso aconteça, é comum a utilização de redes de proteção ao redor das vinhas.  A utilização de redes para a proteção das vinhas é cada vez mais frequente, mas ainda se perde muito devido ao fenômeno climático.

A seguir vamos falar das particularidades de cada região produtora de vinho da Argentina.

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As principais regiões produtoras de vinho argentinas

Salta/Cafayate, os vinhedos mais altos do mundo

A mil quilômetros de Mendoza, a região é conhecida pelos vinhedos mais altos do mundo (com mais de dois mil metros de altitude) e fica próxima à fronteira com a Bolívia. Com o clima seco, o segredo de Salta é a baixa produtividade das videiras, que resulta em poucas uvas, porém com excelente qualidade. As principais castas cultivadas nos climas extremos essa região são a Malbec, a Torrontés, a Cabernet Sauvignon e a Syrah.

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Vista da vinícola El Porvenir de Cafayate

Província La Rioja, os vinhos mais em conta da Argentina

Com oito mil hectares de vinhas localizadas entre 800 e 1.000 metros de altitude, a província de clima seco e muitos ventos se dedica à produção massiva de vinhos mais econômicos.

San Juan, a região vitivinícola responsável por um quarto da produção de vinho argentina

Cerca de 15% do vinho argentino é produzido em San Juan, região muito quente e muito seca e com vinhedos plantados de entre 650 e 1.400 metros de altitude. A região está investindo bastante no cultivo de Syrah, que se adapta bem ao clima árido de lá.

Conheça Mendoza, a principal região vitivinícola da Argentina

É a principal região vitivinícola da Argentina, responsável por 70% da produção nacional e com videiras que cobrem aproximadamente 160 mil hectares de terra. Como se trata da mais extensa região produtora de vinhos no país, é possível notar diferentes climas dentro dela. As sub-regiões de Mendoza são Luján de Cuyo, Maipú, Vale de Uco e San Rafael. A água utilizada na irrigação é, em sua grande parte, proveniente do degelo dos Andes.

Patagônia, os vinhos do sul da Argentina

No sul do país, os vinhos são intensos e carnudos, com grande personalidade. Nesta região, a influência da Anatrtica é grande, o que impacta em temperaturas mais baixas. A produção vitivinícola fica entre 300 e 500 metros de altitude em relação ao mar. Várias vinícolas da região tem ligações externas à Argentina, como inspirações em Bordeaux ou são gerenciadas por europeus.

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Vinícola Humberto Canale, na Patagônia.

Conhecendo os vinhos produzidos na Argentina

Se você quer conhecer os vinhos produzidos na famosa região de Mendoza, vale a pena degustar a produção de três vinícolas locais: a Escorihuela Gascón, Cobos e a Pulenta.

Escorihuela Gascón

A história da bodega remonta 1880, quando Miguel Escorihuela Gascón, então com 19 anos, imigrou da Espanha para a Argentina. Depois de um curto período na capital, Miguel mudou-se para Mendoza, onde adquiriu 17 hectares de terra e iniciou a construção da vinícola. É a produção mais antiga da região e de maior prestígio no país. A fórmula para o sucesso e a elaboração de vinhos de alta qualidade são alguns fatores que o fundador considerava crucial: o cuidado com as vinhas, a tecnologia e a equipe de enólogos renomados e competentes.

Para conhecer a vinícola, indicamos o Vinho Tinto Escorihuela Familia Gascón Cabernet Sauvignon 2014,  um vinho rico, volumoso e com aromas intensos de frutas negras.

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Vinã Cobos

O enólogo americano Paul Hobbs aterrissou na Argentina em 1989 e por lá deixou-se seduzir subitamente pelo terroir de Mendoza. Foi somente no ano de 1997, porém, quando Paul conheceu dois enólogos da região – Marchiori e Barraud – que decidiu dedicar-se à produção de vinhos. Unidos e descontentes com a imagem da Malbec mundo afora, passaram a produzir vinhos argentinos de reconhecimento internacional.

Para conhecer a Cobos, nossa indicação é o Vinho Tinto Cobos Felino Malbec 2015. Um Malbec argentino que combina estrutura, densidade e equilíbrio. Este tinto nasceu com aromas florais, cereja negra, baunilha e chocolate. Em boca é suculento, fresco, estruturado e gastronômico.

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Pulenta Estate

Apesar de a vinícola ter iniciado as suas atividades somente em 2002, a história da família Pulenta com a vitivinicultura argentina começou 100 anos antes. Em 1902, Angelo Pulenta e Palmina Spinsonti foram de Ancona, na Itália, para a Argentina ,e lá fincaram as raízes da família (e de suas vinhas). Passadas três gerações, os Pulenta resolveram transformar a paixão em trabalho e abriram as portas da Pulenta Estate, que mesmo depois do reconhecimento manteve o ambiente familiar, onde cada vinho nasce e é cuidado como um integrante da família.

À flor da idade, os vinhos da linha “La Flor de Pulenta” são os primeiros a saírem da vinícola mendocina a cada safra. Este Vinho Tinto La Flor de Pulenta Malbec 2014 foi envelhecido por seis meses em barricas de carvalho de segundo ou terceiro uso, ganhando mais estrutura do que notas gustativas. É um vinho suculento e fresco, com sabores limpos e taninos polidos.

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