Filoxera: foi por causa dela que quase ficamos sem vinho no mundo!

Publicado em 04/04/2017

Uma praga de proporções bíblicas que quase levou as videiras de todo mundo à extinção, fazendo com que os europeus arrancassem suas plantas pela raiz. Conheça a história do inseto que devastou o mundo do vinho por quase 40 anos!

A praga filoxera-da-videira foi um dos mais desafiadores flagelos que se tem história no mundo do vinho. O pulgão amarelo Daktulosphaira vitifoliae se alimenta das raízes da videira causando a doença Phylloxera, que devastou maciçamente os vinhedos europeus no final do século XIX.

Originário da América do Norte, diversas pragas chegaram à Europa ocultas em coleções de plantas que eram trazidas do Novo Mundo. O inseto da filoxera, em especial, é quase microscópico (tem de 0,3 mm a 3 mm de comprimento), e vivia camuflado nas raízes das plantas, praticamente imperceptíveis. Diferentemente dos navios antigos, os à vapor eram tão rápidos que conseguiam atravessar o Oceano Atlântico antes que eles morressem. E, em cada vinhedo que pousavam, levavam as plantas à morte. As que sobreviviam à praga

O inseto causador da praga Filoxera.

O primeiro vinhedo a decretar a filoxera-da-videira, em 1863, se localizava no sul da Inglaterra. Em apenas poucos anos, é identificada na França, no Languedoc, Vale do Rhône e Bordeaux, reduzindo a produção de vinho francês pela metade. Após essa primeira leva de contaminação, ano após ano a praga chega em um novo país: Turquia, Áustria, Suíça, Itália, Portugal e Espanha.

Para se ter ideia do poder de dispersão da praga, os insetos podem ser transportados de um vinhedo para outro por meio de qualquer material botânico (como podas, mudas, rizomas, folhas e brotos), terra, maquinário (equipamentos e veículos), cachos de uvas, produtos vinícolas (mosto e suco de uva), e até mesmo por pessoas e roupas.

Por volta de 1878, quinze anos após o início da praga e após a perda de 40% das videiras na Europa, iniciaram-se os experimentos com enxertos de rizomas norte-americanos em vinhas francesas. Como o inseto da filoxera era natural dessa parte do mundo, as vinhas indígenas americanas eram naturalmente resistentes a eles. Suas uvas, no entanto, davam vinhos com menor complexidade aromática e estrutura, e existia relutância dos vinicultores europeus em produzir vinho a partir delas. A solução foi transplantar os rizomas imunes a mudas de Vinis vinífera europeias e replantar todos os vinhedos que foram perdidos.

Essa solução, no entanto, não evitou o impacto no mercado de vinho europeu. Um pé de videira demora no mínimo cinco anos para estar maduro o suficiente para gerar uvas de qualidade e concentração adequadas. E mais de cinco anos para produzir vinhos superiores. Após a colheita, ainda são necessários mais alguns anos de processo de envelhecimento e guarda até os novos vinhos chegarem ao consumidor final. O que significa que muitas vinícolas, além das perdas financeiras e gastos para a recuperação, ainda ficaram improdutivas por anos, causando a falência de muitos produtores. Até hoje é possível encontrar vinhedos abandonados dessa época espalhados por todo o continente.

Folhas de videiras infectadas pela Filoxera.

E, enquanto as plantas eram replantadas nos primeiros países a testarem a solução, vinhedos na Grécia, Alemanha, Croácia e Argélia ainda eram atacados. Ao todo, podemos considerar que foram quase 40 anos de devastação.

Muitos lugares do mundo considerados mais isolados não precisaram recorrer ao enxerto e mantiveram seus vinhedos com o que chamamos hoje de pés-francos. Com esse risco, e a praga ainda sem nenhuma cura, o mundo do vinho viu começar a segunda onda da praga: vinhedos da Califórnia foram atacados pela filoxera na década de 1980. Os gastos com a recuperação do vinhedo são estimados em quase 1,2 milhões de dólares, enquanto mais de 16 mil acres de plantas foram arrancadas nos vinhedos nas regiões de Napa e Sonoma. Em 1990, foi a vez dos vinhedos de Oregon e da Nova Zelândia e até mesmo a isolada Austrália foi atacada pelo pulgão.

Os vinhedos do Norte da Austrália foram os primeiros a serem infectado pela Filoxera. Sem saber o que fazer, a política adotada foi de queimar as plantações e deixar os terrenos sem uso por tempo suficiente para que os insetos morressem. Mas de nada adiantou! Dez anos depois, o Centro e o Nordeste de Victoria já estavam infestados, asisim como Nova Gales do Sul. No comerço do séculoo XX, Queensland e Brisbane também foram atingidos.

Já a Austrália do Sul, a principal e mais importante região vinícola do país, estava relativamente protegida por não ter recebido plantas infectadas até então, e uma rígida lei foi aprovada proibindo a importação de qualquer material para dentro de suas fronteiras. Após essa medida, diversas outras leis foram aprovadas, inclusive o Ato Phylloxera e Grape Industry de 1995, que previa quarentenas e práticas de higiene e vigilância.

Um dos poucos países produtores de vinho do mundo que se mantiveram completamente intocados pela praga foi o Chile, isolado entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, ao leste e oeste, e pelo Deserto do Atacama e Antártica, ao norte e ao sul.

Desse isolamento, surgiu a inusitada história da uva Carménère. Como muitos vinhedos dizimados não chegaram a ser replantados, algumas espécies de uva são consideradas extintas pela filoxera. E a Carménère era uma delas. Até que, surpreendentemente, alguns pés da casta são encontrados misturados à Merlot em vinhedos do Chile, onde a praga nunca chegou. A uva renasceu na indústria do vinho, agora sendo considerada uma cepa típica chilena. A história completa da redescoberta da Carménère foi pode conferir aqui.

É claro que alguns vinhedos europeus não foram tocados pela praga, e são hoje chamados de vinhedos pré-filoxera. Toro, região produtora do vinho Monte Hiniesta Toro Joven 2008, muito se beneficiou com a devastação dos vinhedos franceses, já que passou a exportar vinhos para várias regiões da Europa, se tornando hoje uma das mais importantes regiões vinícolas espanholas hoje.

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