Mulheres que inspiraram – e continuam inspirando – a minha carreira no mundo do vinho, por Amandine Castillon

Publicado em 07/03/2017

Acho que uma das mulheres que abriu os caminhos para todas as mulheres no mundo do vinho foi a Master of Wine Jancis Robson. É a minha maior inspiração. Dando as minhas aulas, seus livros são a minha principal fonte.

Não só porque ela é mulher, mas porque ela é muito boa. Sempre planejo minhas aulas da Grande École estudando detalhadamente o seu Atlas do Mundo do Vinho, que é maravilhoso!! Já o livro Expert em Vinhos em 24 horas é o meu livro de bolsa – aquele que consulto no momento de qualquer dúvida.

Eu comecei no mundo do vinho em 2012, aos 24 anos de idade, na França. Desde muito cedo, percebi que a grande maioria dos profissionais que trabalham nesse mercado são homens. E que, em geral, as mulheres tinham um papel secundário, raramente ficando à frente dos negócios. Mesmo que vários Châteaux de Bordeaux tinham enólogas comandando a produção de vinhos. Depois de um ano por lá, fui enviada pela Maison Sichel para ser a brand ambassador da marca no Brasil.

Minha primeira impressão ao desembarcar por aqui é que o mundo dos vinhos no Brasil contava com bem menos mulheres do que na França. A proporção era mais desigual. Quando eu cheguei, me senti entrando no mundo dos homens. Poucas mulheres que trabalhavam com vinho me foram apresentadas. E, por isso, me sentia um pouco diferente. Sozinha.

Pouco a pouco, no entanto, fui descobrindo profissionais maravilhosas, espalhadas por todo o território brasileiro, trabalhando nas vinícolas, nas importadoras, nos restaurantes e como sommelières.

A primeira que conheci foi a Gabriela Monteleone. Na época, ela estava trabalhando no restaurante D.O.M., do renomado chef Alex Atala. E depois vi que, por coincidência, existiam várias Gabis no mundo do vinho brasileiro. Eu acho que, se eu tiver uma filha um dia, ela vai se chamar Gabriela porque assim, com certeza, ela vai trabalhar com vinho! (risos)

Não posso deixar citar a Gabriele Frizon, que era do Tivoli e também trabalhou no Hotel Emiliano. Hoje ela está à frente de um projeto surreal, o Palácio Tangará, um hotel cinco estrelas que vai ser inaugurado em julho aqui em São Paulo. Para se ter uma ideia do talento da Gabriele, ela ganhou o Award of Excellence 2015 pela Wine Spectator.

A Alexandra Corvo talvez seja uma das maiores influências no mundo do vinho de hoje, inclusive assina a coluna Sua Carta de Vinhos, na rádio Band News. Fundadora do Ciclo das Vinhas, uma escola de vinhos que se tornou referência na educação e profissionalização de sommeliers no país.

E não vou falar só de São Paulo, não! Tenho uma oportunidade incrível de percorrer restaurantes e bares de todo o Brasil para dar treinamentos e aulas da Grand École, e nesses encontros pude conhecer outras mulheres inspiradoras.

A Andressa Noitel, de Salvador, conhecida como Piccola Madame, também dá aulas de vinhos, assim como eu. É uma grande influência na capital baiana, assinou várias cartas de vinhos de restaurantes soteropolitanos.

Tem também a argentina Cecília Aldaz, do Restaurante Oro, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Aliás, ela ganhou prêmio COMER & BEBER 2016 como a sommelière do ano pelo seu trabalho lá.

Tem outras sommelières em cidades menores que dominam o mercado local como, por exemplo, a Khátia Martins, que é a referência de Bragança Paulista. Depois de passar tanto por restaurantes quanto por empresas do mundo do vinho, resolveu abrir seu próprio restaurante autoral já que, além de sommelière, também é chef. Além de prestar consultoria e elaborar cartas de vinhos para vários restaurantes do interior de São Paulo.

Uma coisa muito interessante é que, se você observar, vai ver que todas essas mulheres são novas, modernas, quebram completamente o estereótipo do mundo do vinho.

Vendo essas mulheres, a gente pode afirmar que não existe “vinho de mulher”, como já escutei várias vezes e soa até pejorativo. Uma mulher pode, sim, gostar de vinhos com taninos, pode gostar de vinhos encorpados, assim como também de vinhos leves. E um homem pode gostar também de um vinho leve. No final, é só uma questão de gosto, não de gênero.

Eu, por exemplo, não tenho um único estilo de vinho favorito. O rótulo escolhido depende da ocasião. Se estou num jantar romântico provando um Boeuf Bourguignon, prefiro um vinho um pouco mais estruturado, até mais complexo. Se estou no parque com meus amigos jogando peteca, minha escolha vai ser um rosé leve e refrescante ou um espumante. Se está frio, não vou beber um branco leve, vou escolher um vinho mais encorpado. Por isso, na minha casa sempre tenho um vinho branco, um rosé e um tinto. Para cobrir todas as ocasiões!

Quando entrei na Grand Cru, comecei a conhecer muitos enólogos e enólogas de outras partes do mundo, já que antes eu só trabalhava com os vinhos da França e de Bordeaux. E eu descobri que no Novo Mundo as vinícolas são muito mais modernas, mais igualitárias, com muitas mulheres “porretas” assinando projetos incríveis, como a Viviana Navarrete da Leyda, a Irene Paiva da Vistamar, a Daniela Salinas da Morandé Adventure e a Noelia Juri da Zorzal.

Entre muitas outras mulheres incríveis!


Amandine Castillon é Sommelière e Coordenadora de Produtos na Grand Cru, e está à frente da Grand École, nossa escola de vinhos. Nascida em Tolouse, no sudoeste da França, é especializada em vinhos da região de Bordeaux. Quinzenalmente, ela vai compartilhar dicas de vinhos franceses, harmonizações e enoturismo neste espaço.

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