Especial Mês das Mulheres: Entrevista com Daniela Salinas, enóloga da Morandé Adventure

Publicado em 02/03/2017

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, que é celebrado mundialmente no dia 8/03, preparamos um especial Mês da Mulher aqui o portal de conteúdo da Grand Cru.

Durante todo o mês de março, vamos convidar e entrevistar sommelières, enólogas, executivas e mulheres que trabalham em diversas funções no mundo do vinho para compartilhar o trabalho que estão desenvolvendo!

Para estrear este espaço especial, entrevistamos a enóloga Daniela Salinas, profissional a frente da Morandé Adventure (antiga House Casa del Vino), um projeto do Grupo Belén, cuja sede é na  vinícola chilena Morandé, e que fomenta trabalhos de experimentação e produção de vinhos autorais, feitos à mão. O resultado é uma linha muito especial de vinhos diferentes, criativos e inovadores.

Confira a entrevista!

Equipe Grand Cru: Como costuma ser comemorado o Dia das Mulheres no Chile?

Daniela Salinas: O dia Internacional das Mulheres é um dia em que todos as mulheres vão para a rua marchar e falar sobre direitos e visibilidade. Infelizmente para nós, enólogas, o dia 8 de março coincide com o auge da época da colheita de uvas, estamos em uma grande correria e o dia passando voando.

GC: Como foi a sua trajetória até se tornar uma enóloga?

DS: Eu sou formada em Engenharia Agrônoma e fiz um mestrado em enologia e vinicultura. Estudei cinco anos de agronomia na universidade e outros três anos para ser especialista em enologia. Eu estudei muito tempo. Enquanto isso, trabalhei nas colheitas em diferentes vinícolas.

Eu decidi fazer enologia quando tinha 17 anos. Meu avô era francês e a verdade é que eu sempre estive muito ligada ao campo, a beber bem mais do que a fazer vinho. Ao mesmo tempo me dei conta que também tinha muita facilidade para detectar aromas, para poder relacioná-los a uma memória sensorial.

Enquanto ainda estava na minha cidade natal, poderia ter escolhido áreas distintas para trabalhar. Criar animais, cultivos vitivinícolas ou diretamente na parte de economia agrária. Decidi ser enóloga porque foi uma área que sempre me agradou muito.

Quando cultivei os primeiros ramos de parreira, assinei os primeiros rótulos produzidos, me dei conta de que isso era o que eu queria fazer para toda a minha vida: fazer vinho. E, de certa maneira, percebi que fazer vinho era, em si, um processo muito natural para mim. Esse é o lado romântico da minha história de fazer vinho.

Por outro lado, trabalhar na vinícola é sempre um caos. É sempre algo divertido, mas sempre um caos. Todos os dias acontece alguma coisa. Terminando a colheita parece que vai ter um pouco mais de calma, mas logo chega a hora de fazer os blends para os vinhos e cuidar da guarda.

GC: Por ser mulher, você já encontrou alguma dificuldade em sua trajetória profissional?

DS: Sim. Nessa área, na maioria das vezes os enólogos são homens. São sempre homens. E é mais difícil chegar a um certo nível, a uma certa hierarquia se você é mulher. Isso acontece justamente por este trabalho estar muito ligado ao campo e à vinícola, é um mundo um pouco mais machista, que tem um pouco mais de distinção entre os gêneros.

Na verdade, eu tive muita sorte porque me deixaram fazer coisas que colegas de trabalho minhas não podiam. Elas eram sempre enólogas assistentes, a segunda enóloga da vinícola, mas nunca atuavam como a enóloga que desenvolvia os seus próprios vinhos. É um pouco complicado. O campo é um lugar em que o machismo está muito presente.

Daniela Salinas apresentou os vinhos da Morandé Adventure no 11º Encontro do Sommelier da Grand Cru.

Daniela Salinas apresentou os vinhos da Morandé Adventure no 11º Encontro do Sommelier da Grand Cru.

GC: Quais enólogas inspiraram a sua trajetória?

DS: Irene Paiva [enóloga da Vistamar, vinícola do mesmo grupo da Morandé] é uma delas porque eu já a vejo trabalhar há cinco anos. Ela é muito profissional com o que faz e é muito determinada. Muito prática, quer resolver as coisas de forma rápida. Ela tem muita experiência nessa área. Tenho enólogas como referência que são de outras vinícolas. Por exemplo, eu gosto muito do trabalho que a Cecília Torres faz. Gosto também de outras enólogas mais jovens, que não são enólogas tão visíveis.

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GC: Qual é a história por trás do desenvolvimento do vinho Despechado, assinado por você?

DS: Eu descobri o vinhedo de onde vem as uvas do Despechado em 2007. Temos esse restaurante dentro da vinícola e, ao redor dele, um vinhedo. Eu sempre via esse vinhedo esquecido Ninguém cuidava muito, ninguém se preocupava muito com ele. E eu pensei “por que não se preocupar com ele?”, e então comecei a cuidar do vinhedo. E na verdade é que nesse momento me sugeriram fazer um vinho da maneira como eu sempre quis,  um vinho que foi inspirado em uma maneira feminina, e pensei “por que não fazer um vinho desse vinhedo?”. E com a uva que é a Pinot Noir.

Por estar perto da bodega, era fácil logisticamente. Antes de produzirmos este vinho, colhíamos as uvas e as misturávamos em outros cortes que fazemos na vinícola matriz, mas me pareceu que esta uva tinha um potencial especial. Ela possuía notas de frutas muito frescas, estava muito, digamos, em sua natureza pura. Ninguém nunca tinha se metido tanto dentro do vinhedo.

A verdade é que na primeira vez que fiz o vinho eu não sabia muito bem o que ia acontecer, só queria conservar esse caráter natural que tinha quando eu provava as uvas. O vinho não tem madeira por isso, porque eu queria conservar essa personalidade única que existia no vinhedo. Muitas vezes, a madeira amacia um pouco, faz uma troca que não é necessariamente o que você procura. O vinho é delicado, suave, mas ao mesmo tempo essa força que comentei, que está sempre aí.

GC: Como é o seu trabalho na Morandé Adventure?

DS: A Morandé Adventure reúne todos os enólogos do Grupo Belén, do qual faço parte. Eu sou como uma guardiã de todos os vinhos. Os vinhos que eu assino pessoalmente  são o Despechado e o Tirazis. Me encarrego 100% de fazê-los. Sobre os outros vinhos, o meu trabalho é acompanhar o enólogo conforme a uva vai amadurecendo, como vai ser vinificado, como vai evoluindo o vinho. De modo que chegue a um resultado completo. “Adventure” faz referência aos enólogos aventureiros, para nos inspirar a usar cepas diferentes, como a Pais, a Cinsault; cortes distintos; buscar formas distintas de vinificar, ovos, “tinajas” antigas, barricas, inox.

É como se fôssemos nos jogar em uma aventura diferente do que é fazer os vinhos das linhas principais da vinícola. Aqui dentro, é uma união, vamos fazendo tudo em conjunto. Cada enólogo tem uma percepção diferente do vinho, tem uma experiência diferente. A junção de todos esses atributos dá origem aos vinhos artesanais e autorais que temos.

GC: Por que vocês buscam fazer vinhos naturais, com pouca intervenção?

DS: Isso tem a ver com o fato de querermos mostrar a fruta pura, a fruta mais delicada. Não usamos tanto leveduras e madeira. Já usamos convencionalmente em outras linhas de vinhos. Tentamos fazer algo um pouco mais divertido, um pouco mais inesperado. Colocamos as uvas para fermentar e não sabemos quando vai começar, quando vai terminar, quanto tempo vai levar. É um pouco mais dinâmico, um pouco mais divertido do que as outras formas de vinificar.

GC: Como você imagina as mulheres no mundo do vinho no futuro?

DS: Eu acredito que nós faremos cada dia mais. Já existem muitas mulheres trabalhando por trás de enólogos e que hoje não são visíveis, mas com o tempo serão. Muitas delas já têm os seus próprios projetos e aí está o mais interessante. Porque cada vez mais haverá maior número de vinhos feitos só por mulheres e para mulheres. Precisamos nos manter trabalhando sempre, fortes, porque em algum momento tudo isso será recompensado. O seu trabalho vai ser visto e isso não tem volta.

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