Especial Mês das Mulheres: Os ovos de concreto e outras tendências no mundo do vinho, por Noelia Juri

Publicado em 05/04/2017

Noelia Juri está prestes a completar a quarta colheita na vinícola Zorzal Wines. A enóloga, que se formou em 2013 e logo encontrou uma vinícola que a fez sentir-se em casa, em suas próprias palavras, já teve a oportunidade de passar por outras bodegas em Mendoza e até mesmo uma temporada de colheita na Califórnia.

Conheça a trajetória da enóloga e fique por dentro das tendências que ela aponta para os próximos anos no mundo do vinho!

Grand Cru: Por que você decidiu se tornar uma enóloga?

Noelia Juri: Decidi estudar enologia porque, desde pequena, frequentava o vinhedo da minha família. Sempre gostei de ver como crescia a videira e a cada ano dava frutos, terminando com uma grande festa: a colheita. Começou aí a minha curiosidade de entender o que se passava quando a uva virava vinho, que era o que acontecia dentro da bodega. Foi assim que decidi, durante o ensino médio, entender um pouco mais o processo de vinificação, estudá-lo.

Ao finalizar os meus estudos no ensino médio, fiz estágio em uma vinícola para ficar mais segura de que escolheria a carreira correta. Isso foi suficiente para me decidir e começar a estudar a faculdade pelos próximos cinco anos, na qual ano a ano me interessava e me apaixonava cada vez mais pelo mundo do vinho.

GC: E como você chegou até a Zorzal?

NJ: Ao terminar a faculdade, em 2013, fiz a minha primeira colheita na Zorzal, onde aprendi muitíssimo e me ensinaram um mundo diferente para vinificar vinhos naturais e com liberdade. No ano seguinte que entrei na Zorzal, fiz a vendimia na Finca Sophenia e, nesse mesmo ano, resolvi fazer a vendimia em Sonoma, na Califórnia. Em 2015, voltei para a Zorzal porque senti que era a minha casa, o lugar onde eu queria estar e onde queria aprender muito mais.

GC: Por ser mulher, você já encontrou alguma dificuldade em sua trajetória profissional?

NJ: Não enfrentei dificuldades em minha trajetória, graças a Deus, sempre me receberam muito bem nas bodegas em que trabalhei e confiaram em mim para desempenhar livremente em setores diferentes. Existem cada vez mais mulheres enólogas e acredito que o mundo vitivinícola de um tempo atrás está apostando e confiando no nosso trabalho.

GC: Gostaria de citar alguma enóloga que inspirou a sua carreira?

NJ: Andrea Muffato, enóloga da Gen del Alma. Tive a oportunidade de trabalhar com ela que, além de ser uma grande profissional, é uma excelente pessoa. Ela é muito generosa e compartilha os seus conhecimentos, por isso também aprendi muito com ela. Seus vinhos são incríveis e ela trabalha duro para conseguir chegar no resultado final.

Noelia Juri, enóloga da Zorzal Wines, durante palestra no Encontro do Sommelier, evento organizado anualmente pela Grand Cru

GC: É muito raro os vinhos da Zorzal passarem algum tempo em carvalho. No lugar disso, estagiam em ovos de concreto. Por que essa escolha?

NJ: A Zorzal começa com o objetivo de fazer vinhos com maior liberdade, maior sensibilidade. Desde a colheita, passamos por todo o processo de vinificação e evolução do vinho, tomamos as decisões diárias por meio de degustações. Isso nos leva a querer elaborar vinhos com mínima intervenção, realizando fermentações espontâneas e conservando nossos vinhos em cubas com formato de ovo de concreto, sem aporte de madeira, ou em barricas de carvalho com vários usos, sempre respeitando e priorizando as características de cada variedade de uva e nosso lugar, Gualtallary!

GC: Por que ovos de concreto e não tanques de aço inoxidável, por exemplo?

NJ: Com o uso dessas cubas com formato de ovo, podemos ressaltar as características tão especiais e únicas do nosso lugar. A forma dessas cubas nos permite elaborar vinhos naturais, com movimento do líquido espontâneo, temperaturas uniformes e uma microoxigenação, deixando expressar ao máximo cada variedade de uva por si mesma e permitindo uma boa evolução do vinho.

GC: Hoje os ovos de concreto estão ganhando cada vez mais espaço, mas quando vocês começaram, em 2013, ainda não era tão comum encontrar recipientes para estágio de vinhos com esse formato. De onde surgiu a inspiração para usar ovos de concreto?

NJ: Com a intenção de elaborar vinhos com caráter e personalidade, os irmãos Michelini começaram a se envolver e estudar a biodinâmica. Viajaram para a Europa, onde encontraram esses depósitos com forma de ovo e notaram uma real diferença dos vinhos elaborados em outros depósitos, como lagares ou tanques. Então foram atrás de conseguir trazê-los à Argentina, porque o custo era muito alto. Fizeram a proposta para um homem que fazia os lagares de concreto em Mendoza para fazer esses ovos. Trabalham todo esse ano para conseguir fabricá-los e obter finalmente o primeiro ovo elaborado na Argentina.

Foi assim que, em 2012, realizaram vinificações de Malbec em todos os depósitos que se encontravam na Zorzal: lagares de cimento com epóxi, tanques de aço inoxidável, caixas de plástico, barricas de carvalho e ovos de concreto. Um tempo depois, realizaram uma degustação às cegas com enólogos e amigos. Todos concordaram que a taça número quatro, que tinha um Malbec elaborado em ovos de concreto, era especial. Era a que mais se expressava e que representava as características do terroir de Gualtallary. Com essa experiência, decidiram deixá-lo um ano evoluindo em ovos e começar uma nova linha, denominada EGGO.

GC: De alguma forma, eles se assemelham às ânforas?

NJ: Sim, se assemelham às ânfora pela forma, que permitem que o líquido esteja permanentemente em movimento. Além disso, pelo material que se fabricam a maioria delas, sem revestimento de epóxi [tipo de revestimento de resina], permitindo a microoxigenação do vinho.

GC: Você acredita que fazer vinhos com menos tempo em carvalho é uma tendência?

NJ: Essa tendência de realizar vinhos sem madeira é cada vez mais forte em todo o mundo e eu acredito que é o caminho certo que devemos seguir para respeitar a natureza, poder descrever um vinho de cada lugar em particular e cada variedade com suas características únicas. Na minha opinião, fazendo esses vinhos e mostrando a grande diversidade de terroir que temos, podemos obter vinhos com grande personalidade, mostrando qual é o nosso objetivo e o que queremos transmitir.

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