5 dicas de como escolher vinhos de guarda para a sua adega, por Massimo Leoncini

Publicado em 10/03/2017

O mundo do vinho é muito amplo. Temos opções de vários tipos. Vinhos que foram concebidos para serem tomados jovens, vinhos concebidos para terem um nível de guarda intermediário e vinhos que foram concebidos para longa guarda.

Não é que estes vinhos nascem de um planejamento prévio dos enólogos e são “fabricados” para esse fim. A guarda é uma característica resultado de muitos fatores diferentes: do solo, do clima e da posição geográfica do vinhedo, juntamente com a escolha da uva certa – qual cepa se adapta melhor àquela região – e o conhecimento, o know-how de quem trabalha no campo e de quem trabalha na bodega. A junção desses fatores, que podemos chamar de terroir, criam um produto final que é apto a ser envelhecido por um tempo determinado.

Dica 1: Conheça as regiões que produzem vinhos

A primeira orientação é escolher o vinho pela região. Isso porque existem regiões que já têm um sólido histórico de vinhos que envelhecem bem. Quais poderiam ser essas regiões? Eu escolheria, primeiro de tudo, Bordeaux. Isso não é novidade para ninguém. Poderia escolher a Côte d’Or, junção da Côte de Nuits com a Côtes de Beaune, na Borgonha de onde saem grandes vinhos para envelhecer, ou a Barolo. Eu também escolheria os vinhos da região de Montalcino, os grandes Riojas e os vinhos de Perdriel, na Argentina. E também, para finalizar, alguns Tannats da região de Canelones, no Uruguai. Além de grandes vinhos do Vale Cachapoal, no Chile.

Vinho Tinto Cobos Bramare Malbec Luján de Cuyo 2013 750 mL

Dica 2: A vinícola é muito importante

Em toda região produtora de vinhos encontramos uma série de vinícolas bem-conceituadas e outras menos conhecidas. É sempre importante experimentar novidades, claro. Mas uma vinícola pouco conhecida que fez um vinho espetacular pode ser uma vinícola de uma única safra excepcional. Ou do início de um trabalho superior. Nesse caso precisamos acompanhar. Mas as grandes vinícolas, de regiões vinícolas tradicionais e que produzem vinhos de guarda devem com certeza estar no seu radar na hora da escolha de vinhos para envelhecer. Se tratando de adquirir vinhos para longa guarda, eu ficaria um pouco mais conservador.

Dica 3: Estude as safras antes de escolher

Nem todas as safras são aptas para longo envelhecimento. Mesmo uma vinícola conhecida por grandes vinhos de guarda podem ter safras pequenas ou safras grandes. Uma safra grande pode, por exemplo, envelhecer 50 anos, enquanto que uma safra pequena pode envelhecer 15. Pensando em Bordeaux, por exemplo, se pega a safra 2010, que foi considerada uma safra abençoada, perfeita, daquela que todo enólogo no mundo gostaria de ter, os vinhos têm um valor “X”. Já a safra 2013, do mesmo Château, do mesmo enólogo, custa metade do preço. Isso porque essa safra não têm tanto potencial de envelhecimento. Logo, a demanda pelos vinhos desta safra é menor e, consequentemente, o preço é menor também.

Vinho Tinto Château Brane Cantenac 2010 750 mL

Dica 4: Fique de olho na proveniência de vinhos de guarda

Se vai comprar vinhos de safras velhas, só compre obviamente de importadores especializados ou em leilões de renome, que possam garantir a proveniência da garrafa.

E eu digo isso não apenas para você se certificar de que os vinhos são originais, e não falsificados, mas também para garantir que a garrafa está em excelentes condições de envelhecimento. O que pode acontecer no mercado de vinhos de guarda é, por exemplo, um vinho sair do Château que foi produzido na França, ir para uma casa de leilão de vinhos na Califórnia, de lá ser adquirida por um negociador de vinhos chinês, e enfim, ser negociada para uma casa de leilão em São Paulo. Com certeza essa garrafa passou por boas mãos e é original. Mas será que ela foi transportada corretamente em todas essas viagens? Será que as empresas envolvidas utilizam contêineres refrigerados? Será que as pessoas físicas e colecionadores utilizaram o transporte especial das companhias aéreas em todos esses voos?

Dica 5: Observe as condições de conservação da garrafa

Em vinhos de guarda é muito importante observar o nível do líquido no gargalo das garrafas. Caso ele esteja muito baixo, cuidado! Isso é sinal de que o vinho perdeu volume.

O que pode ter acontecido para o vinho perder volume?

Com certeza maneira como foi guardado. Se você compra um vinho de uma safra velha que foi guardado no Château, por exemplo, o nível está sempre bem dentro do padrão. Um vinho que viajou muito tem uma maior probabilidade de estar com o nível mais baixo. Outra hipótese é a rolha estar com algum defeito. E, se ele perdeu líquido, tem algum lugar por onde esse vinho saiu. Se o líquido saiu da garrafa, entrou oxigênio dentro dela. Como consequência, o vinho pode ter oxidado ou seu tempo de guarda pode ter sido alterado.

O que deixa o vinho envelhecer devagar são as microoxigenações. Se da micro vira um pouco maior, podem se aceleram os tempos de guarda, certo?

Concluindo, para comprar um vinho de guarda sem medo, vá atrás de uma região que tem potencial para envelhecer vinhos; depois escolha uma vinícola que tem anos e anos de sucesso; depois escolha uma boa safra; compre em lugares que garantam uma qualidade excepcional, seja na aquisição (compraram vinhos de qualidade), seja no transporte (trouxeram até o ponto de venda em contêineres refrigerados); e, depois de tudo isso, quando avaliar o nível do vinho para menores chances de defeito.

Dica extra: nem pense em comprar um vinho de guarda se não tiver uma adega em casa!

Obviamente, para adquirir um vinho de guarda é preciso ter um local adequado para guarda! Se for uma casa, construa uma adega, se morar em um apartamento, tenha uma adega climatizada. Esse tipo de  vinho precisa de uma temperatura constante. Não se fala em um vinho para comprar e tomar daqui a um ano. Se fala de 15, 20 anos. Até mais, em determinados casos. Se você tem uma adega que não é adequada para longa guarda, os vinhos que estão repousando ali irão sofrer com isso.

 

 


Massimo Leoncini é Sommelier Executivo da Grand Cru, e vai escrever quinzenalmente aqui no blog. Italiano da cidade medieval de San Gimignano, na Toscana, chegou ao Brasil a convite do Grupo Fasano, onde trabalhou como Wine Manager por nove anos, antes de assumir a curadoria do portfólio da Grand Cru.

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