Qual é o vinho mais antigo do mundo?, por Mariana Vieira

Publicado em 01/02/2018

Onde tem vinho e história, tem polêmica. Depois de pesquisar sobre qual seria a taça perfeita para os espumantes, chegou a hora de saber qual é o vinho mais antigo do mundo.

Por Mariana Vieira

Bom, a resposta é complexa. A história do vinho remonta a 6.000 antes da Era Comum (a.E.C.), quando, na Grécia Antiga, foi celebrado por poetas, historiadores e artistas. O deus grego Dionísio, inclusive, representava o arquétipo do poder inebriante do vinho, bem como suas influências sociais e benefícios para a saúde. A verdade é que o vinho não é uma invenção, e sim uma descoberta maravilhosa. A fermentação da fruta é um processo natural, causado pela presença de leveduras que estão nas cascas, no ar, no solo. Uvas espremidas inteiras, com casca, se mantidas em um recipiente fechado, começam a fermentar sem intervenção humana. O resultado é um líquido alcoólico altamente complexo. Imagina a alegria quando os primeiros humanos se deram conta dessa descoberta valiosa?!

Existem fortes indícios de que o vinho estava sendo produzido por muito mais tempo do que o registrado. Poderia ter mais de 20 milhões de anos, já que as leveduras de fermentação evoluíram de forma tangente com plantas, flores e frutos. A produção de uvas provavelmente começou um pouco depois de quando o ser humano começou a cultivar trigo, em torno de 8.000 a.E.C.

As inúmeras evidências da produção de vinho vêm sendo encontradas desde o final do século XVIII em alguns sítios arqueológicos, incluindo a Geórgia, o Irã e a Grécia, mas foi na Armênia, datado de 4.100 a.E.C., onde a mais antiga adega até então foi descoberta.

Ânforas do castelo de St Peter’s, na Turquia, datadas de 100 a 300 anos a.E.C.

Existe sempre espaço para o surgimentos de novos materiais e informações sobre a história e origens dessa bebida. Foi o que aconteceu recentemente, em novembro de 2017, quando pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, do Museu Nacional da Geórgia e da Universidade de Toronto, encontraram seis frascos de barro contendo resíduos de vinhos.

Os frascos de barro contendo compostos de vinho residual foram encontrados em dois locais ao sul da capital georgiana Tbilisi, e o frasco mais velho remonta 5.980 a.E.C.. Alguns dos recipientes traziam imagens de cachos de uva e de um homem dançando.

Este novo achado da Geórgia revelou traços de resíduo amarelado, levando arqueólogos a suspeitar que se tratava de um vinho branco, não um tinto. E, por conta do volume, os pesquisadores imaginam que as pessoas na Geórgia estavam produzindo vinhos de uvas cultivadas, e não de videiras selvagens.

Mas será que restou algum vinho conservado até hoje?

Por enquanto, acredita-se que o vinho mais antigo do mundo ainda engarrafado seria um romano de 1.650 anos de idade, que foi encontrado em 1867 em um túmulo perto da cidade de Speyer, na Alemanha. Exposta desde o século XIX no Museu Histórico do Palatinado, esta é considerada a garrafa de vinho fechada mais antiga do mundo.

O museu estuda a possibilidade de eventualmente abrir a garrafa e testar o líquido em seu interior, porém existe o receio de que ocorram reações químicas uma vez que o conteúdo entre em contato com o ar. Outra preocupação é de que, após envelhecer por mais de um século, o vinho possa ter se tornado venenoso. Historiadores debatem se essa garrafa deve ou não ser aberta, por enquanto sem chegar a um consenso.

 

Mas será que não dá para experimentar nenhum desses vinhos antiquíssimos?

Olha, até que dá, mas não é para qualquer um. Na cidade alemã de Bremen, encontra-se uma adega conhecida como Schatzkammer, nome que seria algo como “adega tesouraria”. Por lá, encontram-se tonéis de vinhos que datam do século XVII e XVIII; o vinho mais antigo é datado de 1652, porém não está mais disponível para consumo.

Entretanto, um dos tonéis guarda um vinho de 1727 que pode ser bebido, apesar de não ser comercializado. De tempos em tempos, pequenas quantidades desse tonel são retiradas, engarrafadas e entregues a grandes personalidades locais como uma forma de reconhecimento. Para manter o velho vinho e o barril atualizado, regularmente o tonel é preenchido com pequenas doses de vinho mais recente da mesma marca e com melhor qualidade. Dessa forma, o conteúdo antigo consegue estabilizar o açúcar do líquido novo, mantendo assim o sabor daquele produzido em 1727.

Uma outra alternativa para paladares curiosos por bebidas centenárias são as casas de leilões, que todos os anos intermedeiam transações extravagantes de garrafas safradas. O vinho comercial mais antigo é de 1735: o Porto Hunt’s, de Portugal. Ele é fortificado – por causa do teor alcoólico maior, tende a durar mais – e sai por US$ 11.743. Vai encarar?!

Você também pode brincar de cápsula do tempo com vinho. Compre um vinho de guarda, certifique-se de que o armazenamento está correto e daqui alguns anos você pode abrir e ver o que aconteceu.

Santé!

 

Mariana Vieira é uma jornalista brasiliense que mora em São Paulo. É apaixonada por Gastronomia em todas as suas frentes e decidiu empreender uma jornada de aprendizado no maravilhoso mundo do vinho. Acompanhe as descobertas na coluna Diário da taça no blog da Grand Cru.

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