Surpresa boa: um vinho espanhol da região sobrevivente da última onda da Filoxera, por Didú Russo

Publicado em 03/08/2017

Didú Russo fala sobre um vinho de uma das mais antigas regiões vinícolas da Espanha: Jumilla. Após um ataque tardio da praga Filoxera, os produtores conseguiram salvar suas videiras e produzir vinhos surpreendentes!

Por Didú Russo

É importante saber que a Bodegas Pedro Luis Martinez foi pioneira na produção de vinhos em Jumilla, lá em 1870. Hoje pertence ao grupo da Família Bastida, que tem muito foco e atenção ao gosto do consumidor. Quando experimentei pela primeira vez o vinho tinto Romeo 2015, confesso que estava com um pé atrás. Me parecia algo comercial. Mas o rótulo me surpreendeu! Veio em uma sequência que exigiria um vinho superior, aguentou bem a degustação e agradou a muitos, principalmente os novatos. A casta Monastrell – que na França tem o nome de Mourvèdre – tem mesmo essa característica de médio corpo e taninos macios, que seduzem e não incomodam. Perfeito para ser servido em um grupo de amigos que estão curtindo o vinho como um acompanhamento do momento, e não como estrela principal. Romeo não é um vinho para ser analisado, mas para ser compartilhado, curtido… E sai-se muito bem!

A região de Jumilla produz vinhos desde os tempos dos romanos, como toda a Europa, e desde 1966 é uma Denominação de Origem. Sofreu uma surpreendente invasão da Phylloxera Vastatrix nos anos 80 do século passado, cem anos depois da grande catástrofe européia com essa praga. Eles tiveram muita pedra e muito trabalho para superar o problema. As vinhas foram replantadas sobre raízes de videiras americanas e conseguiram superar o problema, produzindo hoje ótimos vinhos com Monastrell, com Syrah e com Merlot.

Uma curiosidade que muito pouca gente sabe, e que aprendi com um velho produtor do Douro: você sabe qual a razão das raízes das vitis americanas não sucumbirem com o ataque da Phyloxera? Não é que ela seja resistente. Uma vitis vinífera atacada pela praga tem suas raízes seccionadas e sucumbem. As americanas, ao terem suas raízes seccionadas, reagem produzindo novas raízes, logo acima do corte provocado pela praga. Dessa forma, ela fica mais forte e forma ainda mais raízes.

Bem, eu recomendo o Romeo para bons momentos com amigos que não sejam enochatos, que queiram saber como é uma Monastrell, que curtam um vinho elegante e frutado, mas macio e sedutor. Um vinho que não vem para se mostrar, mas para agradar apenas. Fará sucesso com queijos meio duros, com risotos, com petiscos, com embutidos. Vinho versátil.

Saúde!

 

Didú Russo é Editor do site www.didu.com.br. Depois de ter passado por diversos veículos de comunicação como Revista Manchete, Editora Globo e TV Record, Eduardo Russo – mais conhecido pelo apelido Didú – escreve sobre vinhos desde 1992 e já lançou dois livros sobre o tema: “Nem leigo, nem expert” e “Vinho para o sucesso profissional”. Depois de ter ministrado mais de 200 palestras e ser o Editor de um dos maiores blogs de vinho do Brasil há mais de 15 anos, também é vice-presidente da Confraria dos Sommeliers, colaborador das revistas 29horas, Prazeres da Mesa, do Jornal do Vinho & Cia e é coordenador do Comitê do Vinho da FECOMERCIO, onde atua na desoneração, desburocratização e divulgação do vinho.

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