Conheça os grandes vinhedos do Novo Mundo

Publicado em 06/10/2016

Quem olha detalhadamente o mapa das grandes regiões vinícolas da Europa percebe, logo de cara, uma característica bastante peculiar: elas são recortadas em regiões ainda menores. Essas regiões, são chamadas de denominações de origem e, cada uma delas, subdividida em vinhedos, com características de terroir muito específicas e bastante diferentes uns dos outros.

O conceito de vinhedo surgiu, originalmente, na França, mais precisamente na região da Borgonha, com o trabalho dos monges cistercienses. Toda instituição católica da época possuía, em sua propriedade, pelo menos um vinhedo para produzir vinho santo para as missas, e os monges eram a principal força de trabalho dessas propriedades.

A ordem dos cistercienses havia sido fundada por Bernardo de Fontaine em 1.112 e, após receberem seu primeiro vinhedo em Meursault, seus monges começaram a estudar a terra e as videiras da propriedade com afinco.

Os monges analisaram os diferentes tipos de solo dentro daquele terreno, descobriram os locais onde as videiras recebiam mais chuva, mais vento e mais sol, e perceberam após sucessivas gerações de plantas quais os tipos de uvas que se adaptavam melhor em cada fileira. Dá para imaginar que, com o passar dos anos, esses monges construíram um conhecimento sobre aquela terra e as uvas da região.

E, diferentemente da maior parcela da população da época que era analfabeta, o clero era um grupo bastante culto. E por isso, todo o conhecimento gerado era minuciosamente descrito e escrito: cada colheita, cada teste, cada nova ideia colocada em prática nos seus vinhedos.

E foi a primeira vez na história que um pedaço de terra foi identificado como excepcional para a produção de vinhos muito superiores aos demais, e lá nasceu o primeiro grande vinhedo da humanidade: o Clos de Vougeot. Para delimitar aquela terra com características únicas, o vinhedo foi murado em 1.336 (“clos”, em francês, significa vinhedo cercado por pequenas muretas). Diz-se ainda que os monges cistercienses foram os primeiros a plantar a variedade Chardonnay na região, e que foram eles que estabeleceram a ideia de Cru.

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Fileiras do vinhedo de Clos de Vougeot, na França.

Com o passar dos anos, o conceito de vinhedo se espalhou por toda a Europa, surgindo vinhas de renome pela Borgonha, na França; Piemonte, na Itália; e na Alemanha.

O que define um vinhedo como especial?

São uma série de fatores que transformam uma faixa de terra em um vinhedo muito especial, capaz de produzir vinho superiores, verdadeiros Grand Crus: a composição do solo, o microclima, a exposição solar e a uva que melhor se expressa naquele terreno. Ou seja, um grande vinhedo é especial porque é impossível replicar os seus vinhos em outro lugar, uma vez que suas características são únicas e exclusivas.

Além disso, um grande vinhedo também inclui a história da ação humana ao longo dos anos naquela terra. Na Borgonha, por exemplo, os vinhedos possuem centenas de anos de história, e os povos que cuidam deles sabem manejar aquele clima e aquele solo em suas mais diversas situações, desde invernos rigorosos até temporadas de seca. Isso significa que, assim como suas características geográficas e climáticas, o que torna um vinhedo especial também são anos – se não séculos – de prática no cultivo daquela terra.

Existem grandes vinhedos no Novo Mundo?

O conceito de vinhedo é muito comum no Velho Mundo. Os Grand Crus produzidos por lá, além da denominação de origem da região, também costumam levar no rótulo o nome do vinhedo no qual foi produzido. E porque não especificar também a uva? Muitos dos vinhos desses vinhedos famosos possuem um corte que varia de acordo com o ano, assim como não estampam o nome da uva pois as regras de produção do DOC local especificam de antemão quais as castas permitidas para produzi-los.

Já no Novo Mundo, o costume é outro: os vinhos levam no rótulo o nome da vinícola e, principalmente, da uva.

Essa diferença nos leva a seguinte questão: será que não existem grandes vinhedos no Novo Mundo como existem no Velho Mundo?

 

A resposta para essa pergunta não é tão simples quanto parece. O Novo Mundo começou a sua produção de vinho séculos depois da Europa, no entanto, tem a seu favor a tecnologia científica do mundo do vinho moderno, desenvolvida durante as últimas centenas de anos anteriores no Velho Mundo.

Segundo o nosso Sommelier Executivo Massimo Leoncini, “com base em todo o conhecimento secular que definiram os grandes vinhedos do Velho Mundo, os enólogos e agrônomos do Novo Mundo pesquisaram um local que tivesse composição de solo, microclima e exposição solar e a casta ideal para produzir vinhos de altíssima qualidade”.

As grandes vinícolas do Novo Mundo estudam arduamente as mais diversas regiões vinícolas, da Austrália ao Chile, da África do Sul aos EUA. Analisam solos, estudam microclimas, escavam o terreno, plantam variedades diferentes e exploram sempre novos terroirs. E estão obtendo excelentes resultados como consequência!

Na Argentina, por exemplo, a cultura da identificação dos vinhos com os seus terroirs está cada vez mais presente. Em Mendoza, duas sub-regiões têm se mostrado excepcionais: Vale do Uco e Luján de Cuyo, onde a vinícola Cobos está produzindo rótulos com resultados surpreendentes. Em Luján de Cuyo, está sendo redefinida a qualidade dos vinhos sul-americanos, principalmente em vinhedos como Marchiori, que já possuem vinhas com idades respeitáveis que variam de 30 a 50 anos.

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Os vinhedos de Marchiori, da vinícola Pulenta Estate.

No entanto, só o tempo dirá se esses grandes vinhos produzidos no Novo Mundo serão, no futuro, referenciados pelo nome dos vinhedos onde suas uvas foram cultivadas, mais do que pela casa ou pela varietal da fruta.

Javier Lo Forte, enólogo de outra grande vinícola do Novo Mundo, a argentina Pulenta Estate, nos contou como eles escolheram o vinhedo ideal no qual são cultivadas as uvas utilizados na produção do Finca la Zulema, o rótulo mais premium da vinícola.

O vinhedo de Agrelo fica de 800 a 900 metros de altitude e seu solo é argiloso, embora também contenha areia e pedra. Ele foi o escolhido pois empresta as características e o estilo perfeito que a vinícola busca: elegância e sofisticação, vinhos que podem ser desfrutados tanto acompanhando pratos quanto sozinhos.

As uvas que compõe o Finca la Zulema são 100% vindas do vinhedo Agrelo. A maior porcentagem do rótulo de 2009 é a Malbec, com 50%, vinda da fileira n. 6, a mais importante da propriedade. Em segundo lugar vem a Cabernet Sauvignon, com 40%, que traz as notas de especiarias e pimentão para o vinho. Ela vem da fileira n. 10, a melhor para a uva neste terroir. A Merlot, por sua vez, contribui com 10% do corte, e empresta suavidade e elegância para o vinho. Ela vem da fileira n. 7. Todas essas fileiras são trechos de terra muito especiais, com vinhedos mais antigos, menos produção e uvas mais concentradas, resultando em delicadeza, muita fruta e elegância. Além de uma excelente tipicidade da Malbec, da Cabernet Sauvignon e da Merlot.

Vinho Tinto Pulenta Single Vineyard Corte La Zulema 2009 750 mL

Vinho Tinto Pulenta Single Vineyard Corte La Zulema 2009 750 mL

A Pulenta trabalha em seus vinhedos principalmente com o conceito de concentração da produção e com manejo especial dos vinhedos. Pois, como concluiu Javier, “um grande vinhedo não é apenas as condições e características do terroir, mas também as pessoas que trabalham na terra”.

Uma aposta de Massimo Leoncini de rótulo do Novo Mundo para guardar na adega é o Vinho Tinto Cobos Zingaretti Valle do Uco 2012, que deve chegar ao seu auge daqui a 15 ou 20 anos, e nos revelará se as apostas da Vinã Cobos estão realmente corretas.

Vinho Tinto Cobos Bramare Malbec Zingaretti Vineyard 2012 750 mL

Vinho Tinto Cobos Bramare Malbec Zingaretti Vineyard 2012 750 mL

Por Marina Leal

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