Vinhos orgânicos e biodinâmicos: os certificados garantem a integridade do vinho?, por Didú Russo

Publicado em 16/05/2017

Neste momento, em que os vinhos “naturebas” – aqueles orgânicos, biodinâmicos e naturais – estão super em alta, costumo sustentar que a melhor maneira de saber o que é o que no mundo do vinho é conhecer ou saber da pessoa que está por trás do vinho. Não são os certificados ou os selos que garantem a integridade do vinho, não. O que garante essa integridade é, sim, a pessoa por trás daquele vinho. Até por que os melhores e mais reconhecidos produtores dessa linha de vinhos não usam certificado algum!

Por Didú Russo

O caso da Zorzal é bastante ilustrativo do que sustento, pois os Michelini foram uma brisa nova, um alento na padronização a que chegou o vinho argentino. Eles deram uma sacudida e mostraram que havia caminhos mais sinceros para mostrar de verdade o terroir.

Na Zorzal, estamos falando de dois Michelini, o Matías e o Juan Pablo, mas eles são em quatro irmãos (Matís, Gerardo, Juan Pablo e Gabriel). E essa linha nova Prófugos, que significa “fugitivo” [em tradução literal do espanhol] é bem apropriada para mostrar o estilo irreverente e autêntico de sair de um padrão pré-estabelecido e partir com a cara e com a coragem para mostrar um terroir, no caso o de Gualtallary, um dos mais altos de Mendoza (1.350 metros), com a menor interferência possível.

Gualtallary, hoje, é uma das mais prestigiadas regiões do vinho argentino. A região fica no Valle de Uco e tem características vulcânicas – pois está aos pés do vulcão Tupungato, aos pés dos Andes. Amplitude térmica, solos aluviais e calcários, brisa andina e altitude acabam resultando em vinhos de grande estrutura e acidez gastronômica.

Para quem ama o Vinho, o mundo não tem divisões geo-políticas, mas terroirs. Os Michelini, em Gualtallary, são um exemplo do que digo.

Um Chardonnay argentino que remete mais aos Chablis

Quem está habituado com os Chardonnays do Novo Mundo, densos, muitas vezes repletos de madeira e aromas que não são da casta, vai se surpreender positivamente com este Chardonnay de extração maior do que os habituais, com muito frescor e personalidade. Um Chardonnay que nos remete mais para Chablis do que para Califórnia ou América do Sul. Vinho quase elétrico, fresco, mas estruturado, sedutor de verdade e muito gastronômico. Imagino uma moqueca capixaba com ele e um bom papo com um bom amigo.

Malbec da Mendoza ou Côt de Cahors?!

Este Malbec Prófugos chega a ser um vinho didático. Habituados que somos com o Malbec tradicional da Argentina – talvez o vinho mais indicado para um iniciante, pois é sedutor, macio, com ligeiro dulçor, denso e compotado -, ao provarmos o Prófugos Malbec temos um grande impacto, pois em nada nos lembra esse descritivo do comum Malbec argentino. Imagino uma parrilla no final de uma tarde quente, amigos em volta do braseiro e muita conversa para entrar noite a dentro. Seu perfil fresco, ácido, vibrante, nos remete muito mais aos Malbec de Cahors, origem da uva, que para os argentinos. Vinho estruturado, gastronômico e sedutor, que pede outra taça.

Concluindo…

Isso fica ainda mais interessante ao sabermos da rigidez dos Michelini em preservar a expressão verdadeira do terroir, não interferindo no processo que as leveduras naturais transformam a uva em vinho. O uso das cubas em formato de ovo também garantem uma extração diferenciada, pois o vinho fica em constante e lento movimento.

Aliás, é interessante notar que a ciência, normalmente financiada pela indústria química, não se dedica a estudar a razão desse movimento diferenciado pela forma do ovo, não acham?… Da mesma forma que não se dedicam a saber por que um adubo animal, depois de colocado dentro de um chifre de vaca e enterrado de um equinócio a outro no vinhedo, fica 80 vezes mais potente do que o mesmo esterco que não passou por esse processo. Curioso isso, não? Mais fácil chamar de bruxaria e continuar a vender químicos que matam o solo.

Saúde!

 

Didú Russo é Editor do site www.didu.com.br. Depois de ter passado por diversos veículos de comunicação como Revista Manchete, Editora Globo e TV Record, Eduardo Russo – mais conhecido pelo apelido Didú – escreve sobre vinhos desde 1992 e já lançou dois livros sobre o tema: “Nem leigo, nem expert” e “Vinho para o sucesso profissional”. Depois de ter ministrado mais de 200 palestras e ser o Editor de um dos maiores blogs de vinho do Brasil há mais de 15 anos, também é vice-presidente da Confraria dos Sommeliers, colaborador das revistas 29horas, Prazeres da Mesa, do Jornal do Vinho & Cia e é coordenador do Comitê do Vinho da FECOMERCIO, onde atua na desoneração, desburocratização e divulgação do vinho.

Esta matéria fala sobre: O vinho em questão...

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